quarta-feira, 5 de novembro de 2014

Arte e Cultura na Reforma Agrária: uma experiência de Educação Musical em Assentamentos

Iranilson de Sousa Carneiro

Universidade Federal do Ceará – UFC

Ensino de música e formação humana em assentamentos
No período de 20 de Setembro a 06 de Outubro de 2010, integrantes de um grupo musical[1] embarcaram numa viagem ao sertão nordestino, visitando quatro assentamentos no interior de um dos estados desta região. Munido de equipamentos de som e instrumentos musicais diversos, além de textos e material audiovisual, tais integrantes passaram por cada uma das quatro comunidades durante quatro dias. As turmas, formadas por adolescentes e jovens moradores das comunidades assentadas, participaram de uma vivência em iniciação musical com as estratégias e metodologias desenvolvidas pelos professores, onde tiveram contato com um repertório de saberes e fazeres musicais, englobando instrumentos musicais e aspectos estruturais da música.

O grupo musical convidado, que desenvolve um trabalho criativo unindo música, teatro e outras invenções a partir dos elementos da cultura popular e conectados com a contemporaneidade, aceitou o convite de ir ensinar conhecimentos iniciais em música nesses assentamentos da Reforma Agrária. A proposta veio de um Instituto brasileiro, em parceria com uma empresa de serviços de apoio a pequenas empresas.

Acredita-se que esse convite tenha surgido em conseqüência do trabalho criativo e significativo que o referido grupo musical desenvolve há mais de dez anos na área artística e também pedagógica. Composto por seis homens e uma mulher, a maioria com formação em pedagogia, o grupo possui vasta experiência em música, teatro, dentre outras aptidões adquiridas por meio de participações em festivais, congressos, cursos, minicursos, bem como criação e elaboração de espetáculos, intercâmbio e produções culturais, atividades consideradas de enorme relevância para o crescimento da cultura nacional e para a formação humana.

Aprofundar vivências em educação musical é algo essencial para a formação das pessoas, no sentido de sua educação estética, que tende a proporcionar o aperfeiçoamento da sensibilidade e da percepção destas. Para Larrosa (2002, pág. 25), “a experiência é em primeiro lugar um encontro ou uma relação com algo que se experimenta, que se prova”. Sendo pessoas comprometidas com a arte e a educação, os integrantes do grupo em foco buscam sempre um envolver-se contínuo de produção e difusão de ações artístico-pedagógicas, valorizando a formação humana, a ética e a cidadania pela experiência, por tudo o que experimentaram e que permaneceu em cada um deles.

A aceitação da proposta de irem ensinar música nos assentamentos se deu de forma coletiva, onde foram avaliados os fatores positivos que os motivaram a embarcar nessa empreitada, tais como: as experiências em conhecer essas comunidades de assentamentos, de como elas vivem; as vivências no ato de educar fora de uma instituição formal de ensino; e o aprendizado que tanto os arte-educadores como os alunos iriam ter. Assim, mergulharam nessa vivência pedagógica a partir da educação musical.

É de importância certa trazer aqui uma definição do que seja educação musical. Segundo Arroyo (2008, p. 18), o termo educação musical nos dias de hoje:
[...] abrange muito mais do que a Educação Musical formal, isto é, é educação musical aquela introdução ao estudo formal da música e todo o processo acadêmico que o segue, incluindo a graduação e pós-graduação; é educação musical o ensino e aprendizagem instrumental e outros focos; é educação musical o ensino e aprendizagem informal de música.

Partindo dessa definição, entende-se que as práticas pedagógicas que foram vivenciadas nestes assentamentos foram uma experiência de educação musical, onde se buscou transmitir os conteúdos básicos no intuito de ensinar às crianças e jovens desses assentamentos as primeiras noções de música.

As configurações de divisão de tarefas foram definidas antes dos arte-educadores chegarem aos assentamentos. O vocalista do grupo assumiu a coordenação pedagógica, a única mulher no grupo assumiu a função de secretária e os outros cinco componentes ficaram com a função de professores.
Cabe aqui dizer quais os instrumentos que foram tocados, estudados e ensinados. No grupo há a presença de percussão, bateria, contrabaixo, violão, trompete, violino, etc. Foram consideradas também as aptidões de um dos membros do grupo que trabalha com construção de instrumentos. Criaram-se então cinco minicursos, que chamamos de Grupos de trabalho – GT. Como parte da metodologia, os conteúdos foram divididos de acordo com a especialidade de cada um.

Os minicursos ou GT foram: Iniciação a percussão brasileira; Introdução a harmonia: prática de violão e contrabaixo; Construção, elaboração e iniciação ao pífano; Iniciação à leitura melódica utilizando a flauta doce; e Estudos básicos de bateria, tendo como prioridade de conteúdo as necessidades locais de cada assentamento.

O ensino desses instrumentos, assim como todos os outros instrumentos musicais, acontece atualmente em algumas instituições de ensino como atividade extracurricular, ou por meio de iniciativas como esta aqui relatada, mesmo com a existência da Lei 9.769/08, que torna obrigatório o ensino de música nas escolas da Educação Básica (lei sancionada pelo governo de Luis Inácio Lula da Silva). São iniciativas pontuais, mas que são importantes para o fortalecimento e acontecimento da educação musical em todo o país.

Uma das intenções, também, tendo em vista que os arte-educadores sabiam da existência da Lei 9.769/08, foi a de divulgá-la, já que a mesma trata sobre essa prática de ensino importante para a formação humana, na intenção de que as crianças e jovens destas comunidades assentadas possam conhecer a existência da obrigatoriedade da educação musical em escolas da Educação Básica e dessa forma possam construir sua identidade, para, um dia, serem multiplicadores do fazer artístico, da prática da educação musical.

Para Santos (2011, pág. 224), “a música é um dos caminhos de produção de identidades culturais. As pessoas se agrupam socialmente através das práticas musicais”. Esta pode ser considerada uma das metas do projeto, de não apenas ensinar música por ensinar, mas também incentivar a valorização de si, da construção coletiva de uma identidade por meio de uma prática de ensino que é ao mesmo tempo arte e cultura.

Por outro lado, é necessário que se diga que estas comunidades são muito mais carentes de necessidades básicas que outros grupos sociais, como os que habitam as zonas urbanas das cidades. Alguns destes assentamentos estão embrenhados no mais quente sertão do interior do Nordeste brasileiro, sofrendo com falta de água, saneamento básico, alimentação, moradia, saúde e também educação. Contudo, pelo viés da arte e da cultura, essas comunidades podem descobrir novas possibilidades de enfrentamento dessas dificuldades, pois
A arte também pode contribuir no desenvolvimento sócio-econômico dos assentamentos, assim como na elevação da qualidade de vida das comunidades assentadas, à medida que funcione como força mobilizadora e integradora da comunidade, criando vínculos e construindo identidades (BARROSO, 2005, PÁG. 64).

Ações como esta, de levar um pouco de arte e cultura para as comunidades assentadas, são de fundamental importância para que elas possam conhecer e se apropriar mais dos elementos culturais de seu país, e para que possam vivenciar as práticas educativas que estão sendo produzidas em seu estado, em sua região.

Aproximá-las do mundo contemporâneo transmitindo um conhecimento que favoreça o acontecimento das expressões e manifestações artístico-culturais de grupos sociais assentados, por meio da educação musical, é o que se pode enfatizar sobre a importância deste projeto de arte e cultura em assentamentos. Estas iniciativas devem ser valorizadas e estimuladas pelos órgãos educacionais, visando uma ampliação de práticas musicais envolvendo ensino e aprendizagem.
Relatos de uma experiência significativa
Neste tópico, apresenta-se uma descrição de como foram realizadas as atividades nos quatro assentamentos por onde o projeto passou. Antes disso, o grupo se reuniu em planejamento, dois dias antes da viagem para definir algumas questões importantes que facilitariam o trabalho. O coordenador pedagógico que também é líder do grupo sugeriu que fosse feito, nos quatro assentamentos, dois momentos que tornariam o trabalho mais prático: a chegança e a culminância.
Na chegança aconteceram as plenárias de apresentação do projeto, exposição de pensamentos, críticas e idéias a partir de dinâmicas e jogos coletivos; relatos de experiências, dicas, informes, instruções; participação dos alunos e membros da comunidade. Já na Culminância ocorreram as plenárias de conclusão das atividades, apresentação de exercícios musicais, avaliação e desfecho, bem como a participação dos alunos e membros da comunidade.
            Outra sugestão do coordenador pedagógico foi que durante as noites, fossem feitos ensaios abertos das músicas autorais, convidando a comunidade e os alunos para assistir, com o objetivo de aproximá-los dos processos de criação do grupo. Esta ideia foi desenvolvida dentro do campo da didática, onde puderam ser produzidas as músicas aproveitando o momento livre da noite, além de ter proporcionado uma sensação de encantamento aos alunos, sempre atentos aos modos do grupo de criar e compor canções.
            Ao chegar ao primeiro assentamento na tarde do dia 20 de setembro de 2010 e durante a noite os arte-educadores apresentaram a metodologia de trabalho, realizaram algumas dinâmicas de grupo tais como apresentação e relaxamento utilizando música e realizaram a divisão dos alunos nos GTs. Todos os minicursos foram realizados nos quatro assentamentos. Apresentamos aqui, um quadro resumido dos GTs em cada assentamento:

Quadro 1: Demonstrativo dos minicursos realizados nos assentamentos
Assentamentos
Número de participantes (geral)
Grupos de trabalho (minicursos)
01
02
03
04
44
46
54
34
Iniciação ao pífano
Iniciação a percussão
Iniciação a bateria
Iniciação a harmonia
Iniciação a leitura melódica
Fonte: Relatórios dos arte-educadores (2010).
Para a realização de cada minicurso, foi desenvolvida uma metodologia padrão para cada assentamento, envolvendo: abertura com dinâmicas de apresentação e escolha livre dos minicursos pelos alunos; aulas nos turnos manhã e tarde; ensaio aberto à noite com o grupo musical; e, apresentação dos resultados na última noite. Em cada assentamento, os alunos inscritos tiveram contato com assuntos específicos à área solicitada, perfazendo uma carga horária de 30 horas de trabalho.
No quadro acima, as informações específicas de cada minicurso, como conteúdos e resultados obtidos, não foram contemplados devido à quantidade enorme de informações a esse respeito. No entanto, analisando de modo geral estes aspectos nos GTs dos quatro assentamentos, pode-se concluir que em todos foram trabalhados conteúdos relevantes no campo da educação musical, alcançando os resultados esperados no processo de execução dos trabalhos dos participantes.
Para exemplificar tais resultados, em um dos assentamentos, três alunos (duas meninas e um menino) do curso de iniciação a bateria, nunca haviam tocado tal instrumento. Durante a apresentação final do minicurso, feita para toda a comunidade (pais de alunos e demais moradores), eles mostraram o que aprenderam, tocando ritmos como o xote e o ska. No caso do ska, o professor utilizou-se de um exercício que consistia em tocar o bumbo, chimbau, caixa, chimbau (sempre nessa ordem), repetidas vezes e com um andamento lento para facilitar a memorização da célula rítmica. As meninas foram as que melhor assimilaram o exercício proposto, segundo a avaliação do professor.
Noutro exemplo, houve uma apresentação da música “Asa Branca”, de Luiz Gonzaga e Humberto Teixeira com a participação dos alunos dos GTs de percussão, bateria e flauta doce. Criava-se assim, um momento de apreciação e também de avaliação e conclusão. No GT de construção, elaboração e iniciação ao pífano, que tinha como objetivo apresentar a jovens e adolescentes os conhecimentos e técnicas de construção de pífanos e flautas artesanais características do nordeste brasileiro, alunos aprenderam a construir pífanos e a tocar as primeiras notas. Um deles mostrou-se muito habilidoso, construindo três pífanos em apenas três dias de aula. De acordo com o professor, devido ao pequeno número de alunos, foi possível também aprofundar melhor os conhecimentos sobre a afinação do pífano, pois se tratando de um conteúdo muito delicado, o número reduzido de alunos possibilitou um melhor aprofundamento deste ponto.
            As aulas do GT de iniciação a percussão brasileira, foram muito úteis para os jovens participantes, pois já havia ocorrido, com a presença deles, um curso de construção de instrumentos percussivos onde os mesmos foram utilizados nas aulas, trabalhando ritmos como o baião, o maracatu e a ciranda. No GT de Estudos básicos de bateria, foi apresentado aos alunos um conhecimento básico sobre esse instrumento rítmico com o objetivo de introduzir jovens músicos no conhecimento da bateria. Foram trabalhados ritmos como o forró, a ciranda, o maracatu pernambucano, o xote, o baião, dentre outros. Todos os alunos tiveram a oportunidade de tocar na bateria, sendo que apenas um dos alunos não conseguiu assimilar os exercícios aplicados.
No GT de Introdução a harmonia: prática de violão e contrabaixo, o nível dos alunos era bem diferente, onde alguns conheciam o instrumento e até sabiam tocar algumas notas, enquanto outros estavam tendo o primeiro contato. Já no GT de Iniciação à leitura melódica utilizando a flauta doce, os onze alunos participantes aprenderam: conceitos de parâmetros sonoros; identificação da nota no pentagrama; exercícios de solfejo; e conhecimento das notas, escala natural, pentagrama e clave de sol.
Considerações finais
            Ter vivido esta experiência de desenvolver práticas de educação musical em lugares como estes assentamentos da Reforma Agrária, foi de um aprendizado grandioso para os integrantes do grupo musical em estudo, pois, antes de serem professores – ou arte-educadores, são artistas.
As práticas em salas de aula com educação musical desses integrantes eram bem pontuais no período em que foi realizado este projeto, tendo em vista que foi priorizado o trabalho artístico, as criações e composições do referido grupo.
            Acredita-se que a meta arte-educativa tenha sido cumprida, pois o resultado final do projeto foi considerado um sucesso, em uma reunião de avaliação das atividades. O grupo levou o ensino de música para um total de 178 alunos, entre crianças, adolescentes e jovens, de quatro assentamentos, além de ter possibilitado um encontro da comunidade todas as noites durante os ensaios abertos, numa comunhão de alegria, arte e cultura.
            Propiciar o acesso à cultura de modo geral, por meio da educação musical é um dos objetivos de muitas iniciativas iguais a esta que acontecem em nosso país. “São projetos voltados para a inclusão social (...), nos quais se destaca a música em projetos sociais”. (SANTOS, 2011, Pág. 186). Sabemos da importância da realização de tais iniciativas, mas é preciso também que estejamos cientes do nosso papel em fazer valer o ensino de música não somente fora da escola através de projetos via editais de fomento a cultura visando à inclusão social de crianças e jovens, mas também dentro dela como propõe a lei 11.769/2008.
            Em síntese, a experiência de participar de um projeto como esse, é muito importante tanto para os arte-educadores como para os alunos. Os colaboradores e facilitadores do projeto deram oportunidade para que esses jovens possam despertar e procurar desenvolver seus potenciais artístico-culturais, para que um dia eles possam contribuir com a mudança de si e da realidade da sua comunidade. Acredita-se que esta experiência tenha contribuído para acionar neles uma vontade maior de viver, de participar de um grupo musical ou até mesmo, quem sabe, de ensinar.
  
Referências
ARROYO, Margareth. Educação musical na contemporaneidade. In: SEMINÁRIO NACIONAL DE PESQUISA EM MÚSICA, 2.  2002, Goiânia. Anais do II Seminário Nacional de Pesquisa em Música. Goiânia: ANPPOM, 2002. p. 18-29.

BARROSO, Oswald. A arte e a cultura na construção da reforma agrária. Fortaleza, CE. 2005.

BONDÍA, Jorge Larrosa. Notas sobre a experiência e o saber de experiência. Revista Brasileira de Educação. Rio de Janeiro, n. 19, p. 20-28, 2002.

BRASIL. Lei n.11.769 de 18 de agosto de 2008. Brasília, DF: MEC/SEF, 2008.

SANTOS, Regina Márcia Simão. Música, Cultura e Educação: os múltiplos espaços de educação musical. Porto Alegre: S



[1] Este grupo musical surgiu no início dos anos 1990. Mistura música e comicidade em um trabalho autoral a partir de elementos sonoros, cênicos e coreográficos, tendo circulado com seus espetáculos em países como Alemanha, Portugal, Coréia do Sul, Argentina, Cabo Verde, Estados Unidos e Brasil.

terça-feira, 22 de julho de 2014

Arte Retirante - de volta a Itapipoca...

Após recesso de alguns dias a Casa de Teatro Dona Zefinha reabre suas portas para mais uma programação cultural. "Quem tem medo do escuro?" do Coletivo Cambada de Teatro empolgou o público com suas fantasias e brincadeiras. Foi mais uma noitada de teatro oferecido pelo Centro Cultural Banco do Nordeste através do programa Arte Retirante. Registro fotográfico de Joelia Braga e Jedson Albuquerque.